Eu não queria dizer, mas andei sonhando com você. Nada especial. Você só apareceu num canto do sonho. Sentou-se e ficou me observando com teu olhar sereno. Mesmo assim, foi o suficiente pra me fazer acordar preocupado. Não queria dizer, mas acho que andei pensando em você. Nem bem, nem mal; muito.
Assim me parece que a vida vai ser. Vamos nos viciar um no outro. Vamos acordar e buscar a dose que faça passar a crise de abstinência de ficar a noite toda sem se falar. Depois vamos nos lavar e vestir, cada um na ponta de seu mundo; pois, por alguns instantes, a vida teria voltado ao normal. Passaremos o dia longe; cabeça longe do mundo real. De tempos em tempos nos lembraremos; sentiremos o cheiro, o gosto do que nunca fora provado. E, a cada minuto de sobra, sairíamos correndo pra buscar uma nova dose do que parece que engole nossas vidas e refaz nossas almas. Chegada a noite, poderemos nos servir de mais um cheiro, de mais um trago (ou seria de mais uma vez em que as vozes ecoam pelos corredores?). Uma dose alta o suficiente pra nos manter viciados; mas não nos matar.
E chegará o dia em que nos será dado à disposição a dose fatal. Nesse dia, eu não sei o que você fará. Eu, eu já sei. Eu vou beber de teu suor forte; cheirar teu perfume em linhas do teu pescoço; envolver tua alma no meu corpo e fumá-la. Vou acender teu espanto na brasa escarlatina de meu cigarro e sentir a introdução de teu corpo liqüefeito nas artérias de meu cérebro. A overdose vai acontecer. Sem mortes, sem perdas. Nessa primeira tomada, primeira tragada, a dose será certeira para nos manter aprisionados um ao outro. Mesmo que, no outro dia, voltemos a nos provar metidos na distância.
"Adoro, sei lá porquê, esse olhar meio escudo. Quem em vez de qualquer álcool forte pede água Perrier. Adoro, sei lá porquê, esse olhar meio escudo. Que não quer o meu álcool forte e sim água Perrier."
Alguém me explica porquê eu me sinto tão sentimentalóide ultimamente?!
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