quarta-feira, 4 de março de 2009

“Como se todas as estrelas se apagassem”; escreveu, certa vez.

 

De fato, é como se num impulso o céu desaparecesse. E eu, sedento, ordenei ao vento que me desse asas. E voei. Voei para tão longe e tão rápido que cheguei perto o suficiente do sol para que minhas asas de cera não derretessem.

 

E cresci. Como Homem; hoje trabalho, pago as contas, trabalho de novo, malho, limpo a casa, compro verduras e uso roupas sociais que não assustem aos outros.

 

Mas olho para dentro e vejo ainda o Moço. Aquele mesmo, aquele de antes. Aquele que gosta de observar estranhos, mas não fala jamais com eles. Aquele que parece quieto enquanto pensa em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Aquele que não tem medo de altura, de insetos, de tomar um porre, fazer besteira; ou ajudar sem pedir gratidão.

 

E no fundo, bem lá no fundo, existe a peça fundamental: aquela que ordena e cria. Aquele que ainda fala sozinho. Aquele que senta e toca o piano como se o amanhã nunca viesse. Aquele que surge quando o vento corre pela sala, leva o Homem fechar as cortinas, o Moço cerrar as portas e o Menino... ah, o Menino...

 

O Menino sentiu o gosto do vento no dia em que todas as estrelas se apagaram, obscuro. E voou por muito tempo, sem a tristeza de quem olha pra trás. E volta; mas volta como se nunca tivesse ido. Porque, de fato, embora nunca fui.

Nenhum comentário: